Até quando? Cuidar de crianças não é apenas supervisionar.
- saramaianepomuceno
- 12 de dez. de 2025
- 3 min de leitura
Ela tomava o seu banho, mas não era tão tranquilo como estar em casa.
O local era público, em um clube, com várias crianças e adultos.
Ouvia risadas, choros, uma confusão para os seus ouvidos e mente.
Enquanto lavava o cabelo notava que o seu coração batia mais rápido, a respiração alterava, as mãos levemente tremiam, os pensamentos vinham como malas em uma esteira, “estão rindo de mim?” será que é do meu corpo?” Será que vão perceber que estou diferente?”
Quero sair daqui! Mas como? Todos irão me observar. Que vergonha!!
Quero trocar de roupa rapidamente aqui, mas a minha cuidadora não para de gritar para eu sair.
Então, mais uma vez ela escuta: Anda logo! Sai logo desse chuveiro, você está atrasando a gente.
Ela não via saída, escapatória, restava enfrentar a situação.
Respirou fundo e saiu enrolada na toalha.
Sentia seu rosto queimar, andava nas pontas dos pés, como que não quisesse chamar a atenção, e foi para um cantinho.
Nossa, menina! Para com isso, tira essa toalha, troca de roupa logo, vai ficar molhada assim e eu não vou te ajudar. Falava quem deveria ser a sua cuidadora, mas, na verdade, ali estava uma mulher, insensível, que não queria compreender uma menina, na casa dos seus 10 anos, passando por uma transformação.
Afinal, é natural a criança nessa fase de transformação do corpo, do cérebro, sentir-se deslocada, há um estranhamento do seu corpo, se habitar lugares, de não se reconhecer. Dependendo do comentário, pode-se despertar sentimentos ainda mais intensos e dolorosos.
Você vai colocar a roupa sem secar? Por que não tira essa toalha e seca direito??!!!
Ainda que escutasse muitos sermões, ela sabia que não dava conta e preferiu colocar a roupa, rapidamente, por debaixo da toalha, sem se secar, sentindo incômodo, mas antes isso do que o risco de alguém ver mais da sua intimidade.
Nossa!! que bobeira isso, menina, ninguém está olhando para você, mas se quer sair assim toda molhada azar o seu!!
E, foi assim que ela saiu, cabelos encharcados, olhos com lágrimas, mas sem deixar derramar, cabeça baixa, com uma vergonha imensa e sentindo um desamparo, justamente por não ter sido, cuidada, respeitada e compreendida.
Analisando a palavra cuidado, que relaciona ao caso, cuidadora da criança, no dicionário podemos ver as seguintes definições: “significa atenção, zelo, responsabilidade e esmero ao lidar com pessoas ou coisas, podendo também ser uma expressão de alerta ou precaução, vindo do latim cogitatus (pensar, meditar). Abrange desde a aplicação e capricho em uma tarefa até a assistência médica ou a demonstração de amor e compaixão através de ações.
Interessante a origem do latim que demonstra relação com o pensar e meditar, ou seja, capacidade de perceber o entorno, os por menores de uma situação, de estar sensível ao que se passa.
Demonstração de amor e compaixão, através de ações, nem preciso comentar!
Houve cuidado ali? A criança foi cuidada? Ou apenas estava sendo supervisionada, da pior maneira, sendo reprimida, criticada, julgada, atitudes que contribuem ainda mais para a insegurança, que, a meu ver, não era a primeira vez que a criança recebia esses comentários, uma vez que já não questionava, não lutava, apenas abaixava a cabeça e demonstrava uma falta de esperança.
Ainda me pergunto até quando isso com as crianças?
Até quando a violência com as crianças?
Cuidar não é apenas supervisionar.





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