Domingo
- saramaianepomuceno
- 27 de nov. de 2025
- 2 min de leitura
Era domingo, que silêncio. Ao mesmo tempo que era bom, algo dizia que não. Houve lembranças de sua infância, de sua história, do grande movimento.
Ela levantou, arrumou a louça, preparou o café da manhã, colocou dois pratos na mesa, um bem colorido, com uma família grande de elefantes, e outro cinza.
Arrumava tudo com detalhes, sem barulho, temendo perturbar o delicioso sono de sua única companhia. Ainda mergulhada em seus inúmeros pensamentos e emoções falava para si mesmo como estava difícil.
Pegou-se rindo sozinha com as lembranças de uma mesa cheia de gente, de risadas, discursões, de crianças correndo. Era tão real, que ainda sentia o cheiro do frango com batata de sua bisavó. Da rapa do angu, que seu pai ia sorrateiramente buscar na cozinha, das tias que a agradavam com os presentes, do tênis all star vermelho.
Lembrou-se que hoje a vida parecia tão diferente do que ela tinha vivido. Notou mais uma vez sua solidão.
Não chorou, não conseguiu, pois na hora que ia começar ...ouviu um outro choro vindo do quarto.
Ela correu para oferecer o acalento ao pequeno que despertara.
Oferecer o colo que ela também necessitara.
Entretanto, ela sabia que o pequeno não tinha culpa, ao contrário ele também vivia uma vida de mais solidão, devido a família não ser mais a mesma, a vida e seus valores haviam mudado.
Tantos se foram, tantos partiram, tantos nem se quer tentaram estar presentes, alegando a tal falta de tempo.
Havia vazio nos espaços que deveriam ser ocupados.
Ela então respirou fundo, sorriu, para o ser que a olhava com os olhos mais encantadores, e tomou o seu café.
No entanto, por dentro, a sua mente e o seu coração choravam.
A solidão é um dos grandes problemas em nossa era, o livro “a sociedade do cansaço” nos lembra disso. Há uma grande falha no plano da sociedade de que ter, dos excessos, do consumo, do status, promovem felicidade; isso não nos acolhe.
A noção do comunitário, de famílias que estão fragmentas, em termo do que seria verdadeiro apoio e presença, é algo disruptivo. A condição humana é precária, por isso precisamos tanto do outro.
Claro que temos a capacidade de estar só, a questão é como viver isso. Experiências de solitude, sabendo com quem contar, que há para onde voltar é completamente diferente de passar pela experiência da solidão, que envolve desamparo, de fazer a pessoa sentir que vai desaparecer.
Infelizmente algo tão presente nos dias de hoje para crianças, jovens, adultos e idosos.
A vida não pode ser uma experiência isolada, de estar no piloto automático, de responder demandas, de comparações, ao contrário ela necessita de construção, de crescimento, de contar com um ambiente, um outrem, com quem se possa sustentar, e articular experiências.
O que faz sentido, afinal como bem falado por Gilberto Safra, os seres humanos se constituem a partir da presença do outro, não há presença de si mesmo sem a presença do outro, esse é o paradoxo humano.





Comentários