Pelo seu olhar me desenvolvo
- saramaianepomuceno
- 14 de nov.
- 3 min de leitura

Certa vez, uma mãe de uma paciente de 4 anos fez o seguinte desabafo na consulta inicial:
Ando tão cansada, minha filha me demanda tanto que tem atrapalhado a própria rotina da casa. Tudo ela me quer, tudo é mamãe, não consigo dar atenção ao meu marido ou até mesmo a minha filha mais velha. Ela realmente me sufoca.
Como é a sua rotina com ela? perguntei.
Bem, como disse, tudo estou com ela. Levo na natação, levo na escola, dou o jantar e banho. Meu marido conta história e a coloca para dormir.
Compreendi e muito o cansaço da mãe, era nítido no seu olhar, mas não pude evitar a pergunta, que ainda gera incômodo social, afinal estamos falando da era das tecnologias, smartphones...
Na natação, você olha para ela nadar? Quando janta, vocês conversam? Como está o seu olhar para ela? Quando brinca? está na brincadeira?
Nessa hora a mãe encostou na cadeira, respirou fundo e disse: Agora entendi, o celular.
Por muitas vezes, nós, adultos, não damos a devida atenção, o devido olhar, que tanto a criança precisa para crescer e desenvolver. É uma necessidade de desenvolvimento emocional saudável. Assim como para a criança falar eu preciso estimular, para auxiliar no desenvolvimento emocional é preciso vincular.
O psicanalista e pediatra Donald Winnicott, mostra em suas obras o quanto é fundamental para a constituição da identidade do bebê ou da criança esse olhar. É validar a existência, "olho e sou visto, logo existo"
A mãe suficientemente boa tem essa capacidade de comunicação silenciosa, o que gera total segurança para a criança do afeto envolvido. Nessa fase da infância, o amor também está relacionado aos cuidados e as necessidades supridas, que facilitam e muito o desenvolvimento infantil.
Faço o convite para você começar a observar e perceber um incômodo gerar em você, pode ser em clubes, pracinhas, ou qualquer outro ambiente com crianças, principalmente as pequenas, note como o mundo adulto se comporta .
Quando ela brinca, constrói algo com a areia, massinha, quando consegue se balançar sozinha, como está o olhar do seu cuidador? Validando o seu esforço? olhando para o celular ?
Na natação, onde está o olhar que encoraja? No caso do consultório, a criança tem apenas 4 anos de idade e ainda precisa dessa constante validação, desse olhar que conforta, que promove segurança, que diz estar tudo bem, você pode se desenvolver que eu estou aqui.
A questão é que por se tratar de desenvolvimento humano não há atalho, e essa verdade, por muitas vezes, pode irritar, afinal, a mãe ou o cuidador principal também precisa do seu tempo, do seu espaço, de respirar, de se encontrar.
Por isso que o ambiente precisa promover apoio a essa mãe, no caso, para que ela possa ter saúde física, mental e emocional para auxiliar seu filho ou filha a desenvolver.
Entretanto, sabemos que, infelizmente, para a maioria, não é bem assim que ocorre.
Voltando ao caso da sessão, um pequeno ajuste, que foi a mãe se tornar realmente presente promoveu muita diferença na segurança emocional da filha, o que propiciou a ela se vincular a outras pessoas, consequentemente demandar menos.
Claro, para essa idade a mãe é a referência, mas não se tinha aquele apego inseguro.
Houve mais equilíbrio, mais pessoas presentes, enriquecendo a vida e as experiências da criança e de todos da família.
Torço ,de verdade, por um mundo com mais apoio as mães, um mundo mais consciente da importância do bom desenvolvimento emocional humano para o bom desenvolvimento de uma sociedade.




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